Poema de cearense vira música na voz de Chico Cesar em homenagem às vítimas da Covid 19

A cearense Luiza Caldas Vieira era uma guerreira amorosa, saia espalhando amor por onde passava. Dedicada à família, cuidou de José, o marido, que vive acamado há 16 anos por causa das sequelas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Aos 73 anos, Luiza se foi, vítima da Covid-19, sem poder comemorar os 50 anos de cumplicidade com seu amor, que completaria neste ano. Hoje, a força da matriarca reverbera nos familiares, que torcem pela recuperação de José, também acometido pela doença.

View this post on Instagram

listadas no @inumeraveismemorial. INUMERÁVEIS Andre Cavalcante era professor amigo de todos e pai do Pedrinho. O Bruno Campelo seguiu se caminho Tornou-se enfermeiro por puro amor. Já Carlos Antônio, era cobrador Estava ansioso pra se aposentar. A Diva Thereza amava tocar Seu belo piano de forma eloquente Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar. Elaine Cristina, grande paratleta fez três faculdades e ganhou medalhas Felipe Pedrosa vencia as batalhas Dirigindo über em busca da meta. Gastão Dias Junior, pessoa discreta na pediatria escolheu se doar Horácia Coutinho e seu dom de cuidar De cada amigo e de cada parente. Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar. Iramar Carneiro, herói da estrada foi caminhoneiro, ajudou o Brasil. Joana Maria, bisavó gentil. E Katia Cilene uma mãe dedicada. Lenita Maria, era muito animada baiana de escola de samba a sambar Margarida Veras amava ensinar era professora bondosa e presente. Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar. Norberto Eugênio era jogador piloto, artista, multifuncional. Olinda Menezes amava o natal. Pasqual Stefano dentista, pintor Curtia cinema, mais um sonhador Que na pandemia parou de sonhar. A vó da Camily não vai lhe abraçar com Quitéria Melo não foi diferente. Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar. Raimundo dos Santos, um homem guerreiro O senhor dos rios, dos peixes também Salvador José, baiano do bem Bebia cerveja e era roqueiro. Terezinha Maia sorria ligeiro cuidava das plantas, cuidava do lar Vanessa dos Santos era luz solar mulher colorida e irreverente. Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar. Wilma Bassetti vó especial pra netos e filhos fazia banquete. Yvonne Martins fazia um sorvete Das mangas tiradas do pé no quintal Zulmira de Sousa, esposa leal falava com Deus, vivia a rezar. O X da questão talvez seja amar por isso não seja tão indiferente Se números frios não tocam a gente Espero que nomes consigam tocar.

A post shared by Chico César (@oficialchicocesar) on

O divertido motorista de ônibus, Antônio Everton Chaves de Lima, deixa saudades para a família e passageiros. Everton estava prestes a conhecer o neto quando partiu aos 49 anos, também cearense e vítima do novo coronavírus. Fanático torcedor do Fortaleza, tinha apenas uma preocupação: ser chamado de ‘vovô’, o mascote do time rival. Preferia mesmo ser era chamado de ‘vovó’. O fã do Rei Roberto Carlos deixa um legado de positividade e, como dizia a todos, de que “vai ficar tudo bem”.

Essas e outras histórias compõem o Memorial Inumeráveis, projeto virtual idealizado para homenagear as vítimas da Covid-19 no Brasil. A repercussão da iniciativa chegou até o cordelista cearense Bráulio Bessa, que tem como rotina extravasar sentimentos em versos e estrofes. O poema, que recebeu o nome do memorial, virou música com outro talento nordestino, o paraibano Chico César. Alguns trechos da produção de Bráulio estampam a contracapa do Verso e também as páginas desta matéria.

O primeiro encontro de Bráulio com o ‘Inumeráveis’ foi por meio de um quadro do Fantástico. Nele, as homenagens às vítimas ganharam novo tom com histórias declamadas por atores da TV Globo. “Aquilo me tocou muito e fiquei curioso para conhecer outras histórias”.

O mergulho nas memórias das vítimas foi o suficiente para o cordelista se solidarizar com a dor por meio dos versos. “O artista tem essa característica de que uma inspiração vem a partir de uma angústia. Ser poeta é ser um prestador de atenção do sentimento alheio”

Mote

“Não há quem goste de ser número, gente merece existir em prosa”, a frase que sintetiza o memorial trouxe ao cearense um mote de forma instintiva. “Se números frios não tocam a gente, espero que nomes consigam tocar”, com a estrofe galope à beira-mar, muito utilizada na poesia nordestina, Bráulio desengasga o nó na garganta de tantas pessoas que perderam entes amados em meio à pandemia e acabam sendo reduzidos a dados estatísticos.

No poema, o cordelista resgata as histórias de André, Bruno, Diva, Felipe, Margarida e tantas outras para que não se tornem esquecidas ou invisíveis.

“A arte tem esse poder de tornar tudo mais acessível. O poder de provocar, de emocionar, de transformar um assunto complexo em algo mais simples. Penetra de uma forma mais simples no coração das pessoas”, conta Bráulio sobre a importância de ressignificar esse momento.

Não foi fácil para o poeta transformar dor em poema. Ele lembra da exaustão que sentiu ao terminá-lo. “Exigiu muito do meu emocional, fui dar uma respirada e só no dia seguinte eu tive a ideia de gravar o vídeo”.

Virou Canção

Dividir com o mundo essa homenagem trouxe a Bráulio o convite do cantor Chico César para transformá-la em música. “O Chico comentou na minha publicação, foi um dos primeiros comentários. Quando fui mandar mensagem para agradecer, ele já tinha me enviado: ‘poeta, poderia me mandar por escrito essa obra-prima? Já musicou ou imagina só falado, mesmo que já esteja tão bem dito?’. Topei e respondi muito emocionado”, relata Bráulio que tem o músico paraibano na lista de cantores preferidos.

A vontade de universalizar o poema em formato de melodia veio a partir da conexão e da sintonia que Chico sentiu ao ler os versos. “Eu li o poema ouvindo a música que vinha dele se encontrando com a que saía de mim. Acho importante que as pessoas sejam lembradas pelas suas existências no afeto dos que sobreviverem”, ressalta o músico.

“Tem ao mesmo tempo um tom de doçura, mas também de protesto, de que você precisa entender”, aponta Bráulio sobre a musicalidade da melodia.

Apesar de enxergar a importância da iniciativa e do ressignificado do luto, Chico afirma que preferia não ter tido a necessidade de fazê-la. “Acho triste que exista necessidade de uma canção dessa. Preferia não tê-la feita, mas é necessária. Os tempos são de sensibilidade, mas não sabemos das pessoas da área de saúde não podendo voltar pra casa e das famílias não podendo enterrar seus mortos”, destaca. Chico, no entanto, ressalta: “A música e as artes em geral acalentam o coração”.

Para o idealizador do Memorial Inumeráveis, Edson Pavoni, está sendo muito importante perceber que as histórias penetram no coração, num lugar onde os números não conseguem alcançar e isso tem sido muito potente. “A gente não pode se desconectar da realidade, os dados não são a melhor ferramenta pra gerar essa conexão emocional tão necessária”, afirma.

A sensibilidade do projeto gerou bastante repercussão entrando como pauta de muitos veículos de comunicação. Para Edson, essa repercussão tem mostrado a potência da iniciativa. “Muitas pessoas postam e fazem vídeos sobre o memorial, ver, especialmente, Bráulio e Chico foi muito importante, ver essa conexão poética que está acontecendo em torno do projeto”, ressalta.

Fonte: Diário do Nordeste/CE

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *