Brasil vislumbra pressão por economia verde com Biden e aceno de acordo comercial com Trump

O clima de espera na economia brasileira terá um desfecho nos próximos dias, quando o resultado das eleições presidenciais dos EUA, que acontecem nesta terça-feira, 3, for conhecido. O pleito definirá não só os rumos da maior potência econômica, como também sua linha de interação como o resto do mundo. Para o Brasil, a vitória do democrata Joe Biden, que liderava as pesquisas eleitorais até este final de semana, ou a reeleição de Donald Trump influenciam em agendas importantes como as cadeias de infraestrutura e agricultura. O ocupante da Casa Branca pelos próximos quatro anos também será quem decidirá o seguimento de um acordo de livre comércio entre os dois países e questões que o Brasil vem pleiteando, como a entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Governo de Trump fez acenos ao Brasil nesse sentido, bem como o de agilizar um acordo comercial bilateral.

Especialistas ouvidos pelo EL PAÍS afirmam que, no curto prazo, uma mudança de Governo afetaria pouco a economia brasileira e a balança comercial entre os dois países. Mas o viés de Trump em seu governo e o discurso de Biden em suas campanhas já oferecem alguns nortes. A agenda ambiental, principalmente no que diz respeito à proteção da Amazônia, deve ganhar extrema relevância num eventual Governo Biden, num momento em que a imagem do Brasil está muito abalada devido às queimadas recordes na região.

Durante o primeiro debate presidencial das eleições americanas, Biden chegou a dizer que a comunidade internacional deveria trabalhar para oferecer um fundo de 20 bilhões de dólares ao Brasil para proteger a floresta amazônica. O democrata ressaltou ainda que se ela não estiver protegida, o país enfrentará consequências econômicas significativas. A fala foi criticada pelo presidente Jair Bolsonaro que acusou Biden de atacar a soberania brasileira.

A tendência é que sob uma eventual administração Biden, o Brasil seja pressionado a cumprir as normas de redução de emissões de carbono e a assumir compromissos efetivos para limitar o desmatamento. As políticas ambientais também seriam incluídas em discussões de acordos comerciais, como já acontece atualmente no âmbito do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.

Na avaliação da Câmara Americana de Comércio no Brasil (Amcham Brasil), caso o democrata vença, é possível que o Governo Bolsonaro, fiel a Trump, adote uma abordagem pragmática e abrace compromissos, “ainda que simbólicos, para construir boas relações com os EUA”. “É uma relação nova a construir. Novos interlocutores e novos objetivos. Se o Brasil conseguir manter uma agenda pragmática e uma diplomacia focada em resultado, temos chances de desenvolver mais a relação bilateral”, afirma a CEO da Amcham Brasil, Débora Vieitas.

A Amcham vê ainda uma oportunidade de cooperação na plataforma de energia limpa de Biden, com a relevância do Brasil na produção de etanol, assim como no aumento da produção de energia solar e eólica. O consultor Julio Borges, sócio-Diretor da JOB Economia e Planejamento, avalia que ainda é cedo para saber como o Brasil poderia se beneficiar de uma economia mais verde defendida por Biden.”É difícil dizer se o Brasil poderia ampliar o mercado. Talvez Biden estimule a produção de etanol no mercado doméstico e proteja. Hoje eles possuem uma cota de uso de álcool estrangeiro. Se aumentá-la, pode atrapalhar a produção americana. Difícil falar, os interesses envolvidos são conflitantes”.

Já a política ambiental do presidente Trump tende a ser uma continuação das políticas de seu primeiro mandato. Sendo improvável que em uma reeleição republicana cresçam cobranças sobre práticas ambientais brasileiras, que tampouco fariam parte de discussões comercias entre os países. Como Trump apoia o aumento da produção doméstica de combustíveis fósseis, ele deve seguir limitando a perspectiva de crescimento do etanol brasileiro no mercado americano.

Guerra comercial com a China deve seguir

A disputa comercial entre Estados Unidos e a China, que impulsionou o aumento de exportações brasileiras para o país asiático ― principal parceiro comercial do Brasil ―, deve continuar. Com Trump, renovam-se os ruídos em negociações importantes, desde o leilão do 5G até a compra da vacina, enquanto Biden ainda é incógnita, embora seja o oposto do perfil de seu rival em termos de diplomacia comercial. A retórica do democrata também é de enfrentamento com o gigante asiático. O democrata parece compartilhar da avaliação de Trump de que a China é um concorrente perigoso, dando a entender que as tarifas impostas aos produtos chineses irão continuar. Ainda que Biden tenha chamado a guerra comercial impulsionada pelo concorrente na disputa eleitoral de autodestrutiva, sua campanha se recusa a prometer retirar as tarifas, limitando-se a dizer que elas serão reavaliadas.

Caso essa disputa seja arrefecida durante a administração Biden, o agronegócio brasileiro e as empresas exportadoras poderiam sofrer um baque. A reaproximação das duas maiores potências poderia fazer com que os chineses voltassem a comprar commodities dos americanos, como soja e carne, em vez de importar do Brasil.

Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional da UFMG, avalia que caso Biden seja o vencedor da corrida eleitoral, ele não conseguirá fugir dos caminhos adotados por Trump em várias agendas. “Não esperaria uma guinada na política externa e doméstica. Acho difícil Biden voltar ao status quo de uma relação pacífica com a China. Na economia, esse protecionismo de Trump tampouco deve ser rompido, já que a economia americana está debilitada após a pandemia do coronavírus”, diz Lopes, ao ressaltar que a agenda pandêmica irá consumir o próximo ano. O Brasil está longe de ser o centro das atenções de qualquer um dos dois candidatos à presidência. O que é uma boa notícia para Bolsonaro. “A adaptação do Brasil vai ser em um grau menor numa eventual gestão Biden, economicamente muda pouco no curto prazo”.

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), concorda que a prioridade de qualquer Governo que assumir a Casa Branca no novo mandato será a crise sanitária gerada pela covid-19, o que não deve abrir brecha para mudanças de acordos com o Brasil. “O comércio entre os dois países é feito predominantemente por empresas privados e não o Governo. Acho muito pouco provável que o Biden coloque qualquer tipo de barreira tarifária para o Brasil ou que a questão ambiental reduza as exportações”, afirma.

Hoje os Estados Unidos, o segundo maior parceiro comercial do Brasil, se transformou no maior mercado comprador de manufaturados brasileiros, mas está longe dos números do passado, segundo Castro. Cerca de 60% das exportações brasileiras aos Estados Unidos são de produtos de valor agregado e há anos a balança comercial dos dois países é deficitária para o Brasil. “Nos últimos 12 anos, apenas em dois anos tivemos um mini superávit”, diz.

Com a pandemia, as trocas comerciais entre Brasil e EUA caíram significativamente nos primeiros nove meses deste ano, na comparação com o igual período do ano passado, e o déficit brasileiro com os norte-americanos explodiu. De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia, as exportações brasileiras para os EUA caíram 31,5%, chegando a 15,16 bilhões de dólares. É o menor valor em mais de 10 anos. As importações também caíram, mas menos, 18,8%, fechando em 18,3 bilhões.

Os especialistas concordam que apesar das diferenças ideológicas, tanto Biden como Bolsonaro querem preservar os interesses empresariais e comerciais entre os dois países. O estoque mútuo de investimentos supera 110 bilhões de dólares por ano. “Os EUA são o principal investidor estrangeiro no Brasil, que é o segundo parceiro comercial dos americanos na América Latina. Essa relação não deve sofrer um recuo em nenhum dos cenários”, diz Vieitas.

Mas o que de fato mudou durante a relação Bolsonaro Trump?

A chegada de Jair Bolsonaro à presidência em 2019 inaugurou uma política externa baseada num alinhamento automático aos Estados Unidos de Trump, já que os dois presidentes compartilham um posicionamento ideológico de direita, conservador nos costumes e populista. Apesar de Bolsonaro ter apostado muitas fichas nesse relacionamento, os frutos foram aquém dos esperados e o Brasil acabou saindo em desvantagem em alguns setores em nome do estreitamento da parceria numa postura de submissão, segundo especialistas.

Se por um lado os EUA voltaram a reabrir seu mercado para a carne bovina brasileira in natura, o Brasil realizou uma série de concessões: aumentou a importação de trigo e etanol do país e aceitou restrições na exportação de chapas de aço brasileira pelos americanos. “O caso da sobretaxação do aço é vexatório para a diplomacia brasileira, porque depois do Brasil ser penalizado, o chanceler agradeceu Trump e desejou sucesso. Algo inacreditável, que prejudica o nosso próprio mercado interno”, diz Lopes.

Por um ato de “caramaradagem” e de olho no apoios público do norte-americano para entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil também abriu mão de ter um tratamento de economia em desenvolvimento no âmbito Organização Mundial do Comercial (OMC) e da reciprocidade no âmbito da concessão de dos vistos, explica Lopes. “Ou seja, os americanos entram sem visto e a recíproca não é verdadeira”.

No ano passado, Brasil e Estados Unidos também assinaram um acordo sobre o uso norte-americano da base de lançamentos de Alcântara, no Maranhão, que permitirá aos EUA o uso comercial do local. O acordo foi promulgado no início deste ano. “O Brasil fez uma concessão sem deixar claro o que ganha, se a contrapartida é à altura”, diz Lopes.

Já na visão de Vieitas, da Amcham, a boa relação entre os dois mandatários favoreceu a retomada da relação com a maior economia do mundo e rendeu um minipacote comercial neste mês de outubro. O acordo prevê a simplificação de procedimentos burocráticos, boas práticas regulatórias e medidas anticorrupção. “Ao simplificar todo o processo aduaneiro e facilitar o trâmite de mercadoria, reduzimos o custo de transição, em média em 13%, segundo a OCDE. É um resultado concreto, a primeira fase de um acordo comercial”, diz.

Para Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil, o minipacote é bem-vindo, mas tímido. “Se não tivermos um bom preço de exportação não há facilidade no comércio. A dificuldade é a série de custos de produção e de tributação elevada, o chamado custo Brasil, que precisamos resolver internamente”, afirma.

Do ponto de vista diplomático, o Brasil coleciona derrotas ao escolher Trump como seu grande parceiro internacional, segundo Lopes. “O Brasil se encontra alijado do jogo, tem poucos amigos no plano internacional. Mesmo fortemente dependente da China, agora o Brasil hostiliza o país asiático abertamente, com falas xenófobas de que o problema da vacina Coronavac era a procedência chinesa, que não inspirava confiança. Bolsonaro emula Trump de forma vergonhosa”, diz.

O professor aponta ainda que o Brasil sempre teve boas credencias na temática do meio ambiente. “O país sempre foi um ator sério. Mas o atual Governo esfarelou todo o capital ambiental e diplomático em dois anos e virou vilão”, diz. Caso Biden ganhe, será difícil manter as políticas do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, segundo Lopes. “A tradição dos democratas também é bancar o multilateralismo. O discurso do chanceler Ernesto Araújo também terá que se adequar”, afirma.

El País 

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *