Cair na realidade é pior do que cair do 11ó andar

Credit…Ueslei Marcelino/Reuters

Mas tal como no primeiro trimestre, nem o governo nem a sociedade brasileira se deram conta da dura realidade que nos cercaria. A covid-19 está longe do controle. Uma nova onda sacode a Europa e os Estados Unidos, no Meio-Oeste, em pleno processo eleitoral, e ameaça nossos hermanos argentinos. Aqui, o vírus segue latente onde surgiu primeiro e cresce sistematicamente em estados onde demorou a chegar, como os populosos Minas Gerais e Bahia.

E tivemos a pior notícia deste terrível ano de 2020: antes mesmo de os cientistas e laboratórios dos quatro continentes encontrarem vacina eficaz contra a covid-19, cientistas ingleses descobriram uma nova cepa do vírus que surgiu na Espanha e contaminou britânicos em férias no país ibérico. Isso significa que uma nova vacina terá que ser desenvolvida contra este vírus mutante. E o mais aterrador é que essa “covid-20” pode ser o prenúncio de novas mutações que deixariam o destino da humanidade em SUS suspense.

O dia dos Finados será tristemente lembrado amanhã com o saldo de mais de 160 mil mortos no Brasil pela covid-19 e quase 1,2 milhão em todo o mundo, com mais de 45 milhões oficialmente contaminados. A imensa maioria padeceu e sobreviveu. Uma nova onda encontra médicos e sistemas de saúde mais familiarizados com a doença em todo o mundo. Mas ainda não há tratamento 100% eficaz. E o vírus mutante paira como pesada nuvem de incerteza sobre as populações.

É, portanto, extemporânea e fora de propósito a querela levantada pelo presidente Jair Bolsonaro contra o comprometimento do governo federal para a compra de vacina, seja “made in China”, “made in United Kingdon”,”In USA” ou “made in Russia”. Pragmático, Deng Xiao Ping, que pôs a China na trilha da modernização, adotando modelos de produção capitalistas numa sociedade ainda rural e hipercontrolada pelo partido comunista, único, dizia: “Não importa a cor do gato, desde que cace o rato”.

Que diferença fará uma vacina pela origem se não for eficaz? O perigo não são as pessoas serem inoculados pela vacina de origem estrangeira ou comunista. O inimigo é o vírus. Que agora não se sabe se é exclusivamente chinês ou adotou “cidadania espanhola”. Em respeito aos milhões de brasileiros enlutados com a perda de familiares e amigos queridos, o presidente devia dar uma trégua e se abster de fazer comentários bizarros.

Mas o presidente Bolsonaro parece mesmo fora da realidade e vive numa redoma alimentada por paranoias, de um lado, e por falsas interpretações da realidade, de outro. Um exemplo: comemorou com o ministro da Economia, Paulo Guedes, a criação de 313,5 mil vagas pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) em setembro. Foi o melhor mês desde que foi decretado o Estado de Calamidade em março. A economia está reagindo. Mas, a nova onda da covid-19 na Europa e nos EUA indica que os impactos econômicos da pandemia vão atravessar 2021 e chegar até 2022.

Os números do Caged não podem nos iludir. Como muitos estabelecimentos do setor de serviços (o que mais emprega e contribui para a formação do PIB) não estão funcionando plenamente, nem informam completamente os desligamentos. É estranho que a indústria (que opera com alta formalidade) esteja contratando mais gente que o setor de serviços e o comércio.

A realidade é que a onda de desemprego é muito, mas muito superior, aos 14,4% apontados pelo IBGE no trimestre junho-julho-agosto. Oficialmente eram 13,8 milhões de brasileiros e brasileiras considerados sem ocupação (e que estavam procurando emprego na semana da pesquisa). O mesmo IBGE dá dois outros números que sugerem um pouco de cautela no alardear da recuperação: 30,6% da força de trabalho estavam sendo subutilizados; e a população ocupada (incluindo trabalhadores informais) era de apenas 81,7 milhões, o menor continente em 15 anos.

Isso terá impacto duradouro na Previdência, que teve a reforma de 2019, atropelada pela covid-19. Por sinal que o ajuste das contas fiscais, com a volta do superávit primário (receitas superiores às receitas, sem contar os custos da rolagem da dívida pública, que se aproxima dos 100% do PIB), vai se estender até 2027, sinaliza o Ministério da Economia. Isso pode significar turbulência na gestão da dívida pública.

Tudo bem. Paulo Guedes, qual Silvio Santos, tem de fazer papel de animador de auditório. Mas SS distribui dinheiro “às colegas de trabalho”. Paulo Guedes e Bolsonaro, no afã de animar empresários, investidores e apoiadores, fogem da realidade, quando dizem que “os investidores estrangeiros [que incluem principalmente brasileiros que mantêm capitais em offshores de paraísos fiscais] estão voltando a procurar o Brasil”. Os números do Banco Central e da B3, a bolsa brasileira, desmentiram a ambos. E investidores não são ingênuos.

Cair na realidade é melhor, dizia Nelson Rodrigues, do que cair das nuvens. Para Guedes e Bolsonaro parece ser pior que cair do décimo primeiro andar. Mais realista é o vice-presidente, Hamilton Mourão. Presidente do Conselho da Amazônia Legal, Mourão vai levar esta semana um grupo de duas dezenas de embaixadores de países da Europa, de países que fazem parte da Região Amazônica, da África e da União Europeia, para sobrevoar uma vasta área entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira e Matucará, no Amazonas. A tentativa é de desfazer a impressão de que a Amazônia está sendo desmatada ou pegando fogo.

A quem Mourão acha que vai convencer sobrevoando uma região maior que a Europa, mas evitando sobrevoar as áreas críticas da Amazônia Legal (os territórios do Pará, do Maranhão, Rondônia e o Norte do Mato Grosso)? A região a ser sobrevoada teve pouca invasão dos homens brancos pela ausência de estradas. Entre outros motivos porque a aventura da Perimetral Norte, no governo militar, foi um rotundo fracasso, que preservou a área.

O governo brasileiro não pode viver em uma realidade paralela. É melhor se acostumar com a realidade mais verdadeira, menos fake. Até porque, até o final da primeira semana de novembro, o ídolo e principal inspiração do presidente brasileiro pode perder a reeleição nos Estados Unidos e dar lugar, a partir de 20 de janeiro de 2021, ao partido Democrata de Joe Biden que tem outra visão de mundo e do meio ambiente, quase diametralmente aposta à de Donald Trump.

Por GILBERTO MENEZES CÔRTES, do Jornal do Brasil 

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