Crítica de Trump à ordem mundial tinha certa razão

President Donald Trump dances after speaking at a campaign rally at Green Bay Austin Straubel International Airport, Friday, Oct. 30, 2020, in Green Bay, Wis. (AP Photo/Alex Brandon)

Trump é mal visto por estrangeiros, diz pesquisa em 13 países  Foto: Alex Brandon/AP

As relações exteriores desempenharam um papel importante e obscuro na presidência de Donald Trump antes mesmo do início do mandato. A intromissão da Rússia na eleição que resultou em sua vitória inesperada e o ânimo com que Trump dispensou as descobertas de seus próprios serviços de inteligência sobre o assunto criaram um contexto desagradável para tudo o que se seguiu.

Sua tentativa de obter favores políticos de Volodimir Zelenski, o presidente da Ucrânia, fez com que ele se tornasse o primeiro presidente a enfrentar um processo de impeachment por sua conduta em política externa. Só o apoio republicano no Senado o livrou de perder o cargo.

Essas coisas não passam despercebidas. A reputação dos EUA no exterior despencou durante a presidência de Trump. Em todo o mundo, a julgar por uma pesquisa com 13 países publicada em setembro pelo Pew Research Center, a proporção de pessoas com uma visão favorável aos EUA está, em muitos casos, no nível mais baixo desde que o Pew começou a fazer a pesquisa, há quase duas décadas. No Reino Unido, o índice de aprovação do país caiu de 61% em 2016 para 41%; no Japão, despencou de 72% para 41%.

 

EUA - Donald Trump
Trump é mal visto por estrangeiros, diz pesquisa em 13 países  Foto: Alex Brandon/AP

A confiança de que Trump pode fazer a coisa certa nos assuntos mundiais é ainda menor, especialmente na Europa: sombrios 11% na França e 10% na Alemanha, em comparação com os 84% e 86%, respectivamente, de Barack Obama em 2016. Os personagens da política externa europeia não medem as palavras.

“Calamitosa, cataclísmica, catastrófica, patética”, disse François Heisbourg, da Foundation for Strategic Research, um think-tank francês, quando lhe pediram para descrever como a história julgará a política externa de Trump. Em casa, muitos especialistas republicanos têm opiniões semelhantes; dezenas estão apoiando seu adversário democrata, Joe Biden.

Algumas pessoas que observaram de perto a maneira como Trump foi dominado pela bajulação e pela ganância acham que dignificar sua política externa com algum tipo de análise convencional é conceder a ela o peso estratégico e ideológico que lhe falta. Sob esse ponto de vista, as grandes decisões de Trump foram impulsionadas pelo narcisismo e por um desejo de ganho pessoal: Trump Acima de Tudo, não América Acima de Tudo. Mas quem o apoia tem uma versão diferente.

Esses apoiadores são consequencialistas. Argumentam que os detratores dão muito peso às provocações e aos tuítes impróprios de Trump; um foco em suas ações e em seus resultados prováveis – alguns ainda não sentidos – contaria uma história diferente, que ficará mais clara e parecerá mais sábia com o passar do tempo, mas para a qual os críticos ainda estão cegos.

PARA ENTENDER

Trump ou Biden? Ferramenta mostra quem venceria hoje nos EUA

A cada dia fazemos 10 mil eleições simuladas, com dados das pesquisas mais recentes, para estimar o resultado mais provável em cada Estado e no colégio eleitoral

 

Como disse Matt Pottinger, vice-conselheiro de segurança nacional: “muito se escreveu sobre as vacas sagradas que Trump feriu, mas pouco sobre os coelhos que ele tirou da cartola”. Nadia Schadlow, do Hudson Institute, que atuou como assessora de segurança nacional adjunta em 2018, argumenta na revista Foreign Affairs que, desde o fim da Guerra Fria, os parlamentares americanos vêm sendo “enganados por um conjunto de ilusões sobre a ordem mundial”; uma “série de correções há muito esperadas” e agora realizadas por Trump destruiu essas ilusões.

Para avaliar essa afirmação, primeiro é preciso observar até que ponto a trajetória de Trump não seria, na verdade, uma continuação daquela que o país já vinha percorrendo. O aumento da preocupação com a Ásia (diante da qual Obama “se reposicionou”); o reconhecimento de que os Estados Unidos precisavam prestar mais atenção aos seus problemas domésticos (“a construção de uma nação aqui em casa”, como dizia Obama); o esgotamento das “guerras eternas”: em todas essas áreas, Trump seguiu um sentimento público que vem moldando a política externa dos Estados Unidos há anos.

Apesar de sua alarmante fanfarronice, Trump ainda não se revelou um presidente belicoso. No Afeganistão, ele está encerrando a guerra mais longa da história americana (ainda que não com a celeridade prometida). No Oriente Médio, continuou a luta contra o Estado Islâmico, caçando seu autoproclamado califa, Abu Bakr al-Baghdadi, mas não iniciou novas guerras. Em 2019, causou certa consternação entre os falcões de seu governo quando recuou de um contra-ataque contra o Irã depois que o país abateu um drone americano.

A exceção são as guerras comerciais; estas fornecem uma forma de combate, ousada e performativa, que ele certamente aprecia. Sua campanha contra a China é o embate mais pesado – uma luta na qual o presidente conquistou a vitória com a “fase um” do acordo comercial fechado em janeiro.

Mas ele também gostou muito de entrar em hostilidades com os vizinhos da América do Norte, alcançando o que um observador chamou de “raro feito diplomático de irritar os canadenses” para renegociar o acordo comercial que une os dois países e o México. Em suas tentativas de proteger a indústria siderúrgica dos Estados Unidos, Trump chegou ao ponto de chamar a União Europeia – composta quase inteiramente por aliados da Otan – de “inimiga” no comércio.

Não foi sua única briga com a Europa. Vários presidentes desde John F. Kennedy reclamaram que os aliados da Otan não conseguiam carregar uma parte justa do fardo de se defenderem. Trump fez o mesmo, com um entusiasmo especial – e com efeitos significativos. Foi um dos choques mais salutares que ele provocou contra as premissas básicas de especialistas em política externa de todo o mundo.

Luxo e fantasia

A “ordem mundial baseada em regras”, amada por esses profissionais (e por este jornal), não estava em boa forma quando Trump chegou ao poder. A rivalidade com a Rússia e a China já havia tirado quase toda a funcionalidade do Conselho de Segurança da ONU. Obama minara a credibilidade dos Estados Unidos como supremo garantidor da ordem ao declarar que o uso de armas químicas pelo presidente da Síria, Bashar Assad, constituiria uma “linha vermelha” e, depois, não impor qualquer retaliação quando essa foi cruzada.

Trump erodiu essa ordem já comprometida dando nova voz a uma velha vertente do pensamento americano: a crença de que os Estados Unidos devem agir além de suas fronteiras apenas para promover interesses específicos de curto prazo. Desde suas primeiras décadas como superpotência até alguns anos atrás, a América tentou ser uma potência não apenas no mundo, mas para o mundo. Muitas vezes, o país se restringiu em respeito às regras e às preocupações dos aliados. Na avaliação de Trump, porém, os Estados Unidos vêm em primeiro lugar, o poder tem sempre razão e bradar tudo isso é muito divertido.

A ousadia de Trump não trouxe todas as consequências terríveis que os críticos previram. A Coreia do Norte, por exemplo. Ao entregar o poder, Obama disse a ele que as armas nucleares do país seriam seu problema mais urgente. Trump instintivamente transformou o problema em um teatro de grandes homens, encontrando-se e correspondendo-se com Kim Jong Un no que ele descreveu como um “caso de amor”.

Era uma abordagem incomum e desagradável a muitos de seus conselheiros. Mas as abordagens usuais não tinham dado em nada. Nicholas Burns, da Universidade de Harvard, ex-embaixador da Otan que agora assessora Biden e dá ao presidente uma “nota negativa” em política externa, considera que Trump estava certo em se encontrar com Kim. É verdade que Kim ficou famoso por suscitar encontros de cúpula enquanto conduzia seu programa nuclear. Mas não houve nenhuma crise subsequente, e o verdadeiro reconhecimento do status nuclear da Coréia do Norte pôs de lado as conversas anteriores sobre ataques militares preventivos de contra-proliferação.

A intimidação de Trump contra os aliados da Otan certamente gerou preocupações. Ele reivindica o crédito pelo aumento dos gastos com defesa, que em 2020 devem ser 19% maiores do que em 2016, um gasto extra acumulado em quatro anos de US $ 130 bilhões. Mas, ao não expressar apoio inequívoco à garantia de defesa mútua no coração da Otan, Trump causou danos reais, mesmo enquanto seu governo aumentava seus gastos com defesa na Europa, mobilizava forças em estados da linha de frente e participava de alguns dos maiores exercícios desde o fim da Guerra Fria.

No Oriente Médio, Trump pode reivindicar o direito de se gabar dos acordos de Abraham, um acordo de paz entre Israel e os Emirados Árabes Unidos ao qual também se integrou o Bahrein e, depois de algumas disputas, o Sudão. Ele agradou ao governo israelense e a muitos apoiadores americanos ao transferir a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém.

Mas não demonstrou interesse em usar sua influência para pressionar os sauditas a encerrar sua guerra brutal no Iêmen – em vez disso, vetou um projeto de lei que teria ajudado a causa. Ao invés de punir o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Muhammad bin Salman, por seu suposto papel no assassinato de Jamal Khashoggi, um colunista do Washington Post crítico do regime saudita, Trump o protegeu. “Eu salvei a bunda dele”, gabou-se a Bob Woodward, um repórter veterano que devidamente registrou a afirmação em seu livro Raiva.

A decisão de Trump de se retirar do acordo nuclear com o Irã – um movimento amplamente apoiado por seu partido – deixou os Estados Unidos batendo cabeça com seus aliados e facilitou o caminho do Irã para se tornar uma potência nuclear. A política de “pressão máxima” sobre o Irã, sem quaisquer objetivos alcançáveis, tem pouco a mostrar, exceto o efeito dissuasivo da ação atipicamente ousada que viu o principal general do país, Qassem Suleimani, ser morto por um drone. É uma história semelhante à pressão máxima sobre a Venezuela. O ditador Nicolás Maduro continua firme no cargo, assim como o regime comunista de seus apoiadores cubanos.

A área em que Trump mais abalou as coisas foi nas relações com a China, o maior problema da política externa americana. Tal agitação poderia ter vindo de um jeito ou de outro, por causa da crescente agressão da China. Mas os trumpistas acreditam que o novo realismo do presidente marcou uma ruptura decisiva com a tendência dos democratas de favorecer o processo em vez dos resultados.

De acordo com essa narrativa, os americanos ingenuamente pensaram que se abrir para a China e deixá-la ingressar na OMC em 2001 a incentivaria a se tornar mais liberal e democrática. O que aconteceu foi o oposto. A China explorou a abertura do Ocidente para roubar sua propriedade intelectual. Sob Xi Jinping, seu presidente cada vez mais autoritário, o país se transformou em um rival econômico mais feroz, além de mais poderoso. Continuou a aumentar as suas forças armadas e a intimidar os seus vizinhos. Coube a Trump desafiar a ideia de que este era um movimento irrefreável.

A lealdade é regida pela conveniência

A rigidez em relação à China se tornou um raro espaço de consenso bipartidário nos Estados Unidos. O governo também começou a mudar as atitudes em outros lugares. Teve sucesso em exortar o Reino Unido a evitar a rede de telecomunicações 5G da Huawei, a gigante chinesa das telecomunicações. Espera-se que mais aliados se alinhem. Pottinger diz que a Europa está “18-24 meses atrás de nós, mas se movendo na mesma velocidade e direção”. Na Ásia, a filiação americana à ideia de “Indo-Pacífico livre e aberto”, expressando resistência à hegemonia chinesa, encontrou apoio da Índia à Indonésia, para grande aborrecimento da China.

No entanto, não há evidências de que Trump tenha planos de construir qualquer nova estrutura no terreno que abriu. E ele se privou das ferramentas com as quais poderia fazê-lo. O serviço de relações exteriores americanas, hábil no trabalho paciente de erigir instituições e cultivar relacionamentos, foi destruído; os funcionários ainda no cargo sabem que qualquer coisa que eles – ou mesmo o presidente – negociem pode ser desfeito a qualquer momento, por apenas 280 caracteres.

Os estragos causados pela bola de demolição do presidente aumentaram em três áreas específicas. A primeira é a institucional. Por mais de meio século, o mundo funcionou com base em um sistema estabelecido em meio às ruínas da Segunda Guerra Mundial, liderado pelos Estados Unidos. Agora, o arquiteto-chefe desse sistema está minando suas estruturas. Em alguns casos – Otan, OMC e a própria ONU – Trump apenas enfraqueceu as bases.

Em outros, ele deu meia-volta. Sua rejeição ao controle de armas vai além da renúncia ao acordo com o Irã. Quando a Rússia quebrou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, ele o descartou completamente. Trump flertou com a ideia de permitir que o Novo START, o único tratado nuclear restante dos Estados Unidos com a Rússia, expirasse no início do ano que vem, ainda que agora pareça querer um último acordo para salvá-lo.

A reação de Trump à covid-19 mostrou o pior dessa abordagem. Em meio a uma pandemia global, ele optou por atacar e abandonar a Organização Mundial da Saúde, o órgão responsável por enfrentar tais crises. Quando o mundo normalmente esperaria que os Estados Unidos tomassem a liderança, ou pelo menos tentassem, acabou encontrando um governo mais interessado em culpar os outros e se esquivar dos esforços globais. Algo semelhante acontece com a crise maior além da covid, a mudança climática: um repúdio aos esforços internacionais e uma negligência intencional em casa. Cada retirada americana do sistema internacional é vista em Pequim como uma chance de fazer avançar as reivindicações chineses.

A segunda área de dano é o afastamento de Trump em relação a seus aliados, que muitas vezes não tiveram nenhum aviso prévio de grandes acontecimentos, como o abandono dos curdos na Síria ou a redução das forças americanas na Alemanha. As alianças dos Estados Unidos podem atuar como um multiplicador de forças, transformando seu quarto do PIB mundial em uma coalizão responsável por cerca de 60% da economia mundial, algo muito mais difícil para a China ou a Rússia (que não têm uma rede de aliados permanentes). Mesmo assim, Trump não deu valor aos aliados e menosprezou seus líderes, ao mesmo tempo em que elogiava os presidentes Putin e Xi. Os encontros de política externa estão inundados de preocupações com a “ausência do Ocidente”.

Encorajada pela desatenção do presidente, a Turquia, sob a liderança autoritária de Recep Tayyip Erdogan, está se afastando do Ocidente. “Os americanos viraram as costas e os turcos se rebelaram”, disse Heisbourg. Na Ásia, onde, assim como na Europa, Trump tratou relações de defesa mutuamente vantajosas como redes de proteção, os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso, de acordo com um “Índice de Poder Asiático” compilado pelo Lowy Institute, um think-tank australiano. Mas sua liderança sobre a China diminuiu pela metade desde 2018. Apesar de ter dobrado as apostas com os chineses, Trump mostrou poucos indícios de que sabe como jogar o jogo ou reunir aliados para o seu lado.

As inquietações dos aliados em relação aos Estados Unidos refletem a terceira grande vítima da bola de demolição de Trump: o poder de exemplo do país. Durante grande parte da história pós-1945, muitos olharam para a América como um farol – muitas vezes falho, claro, mas, ainda assim, um guardião da democracia e dos direitos humanos, a melhor esperança para as aspirações expressas em sua constituição. Agora o mundo questiona o próprio funcionamento da democracia americana sob um presidente que alimenta as divisões raciais e bate a porta para aqueles que desejam respirar livremente.

A corrupção em casa dificulta que as autoridades americanas sejam levadas a sério quando pregam contra a cleptocracia. Quanto aos direitos humanos, Trump manteve silêncio público sobre abusos – desde a Bielo-Rússia até Hong Kong. De acordo com John Bolton, seu quarto conselheiro de segurança nacional, Trump disse a Xi, em particular, que construir campos de detenção para uigures em Xinjiang era “a coisa certa a se fazer”. Um Estados Unidos que só pode afirmar que é mais forte que a China, não melhor, é um Estados Unidos que se enfraqueceu.

Tente ficar sereno e calmo

Quão permanente é o dano? Algumas coisas podem ser consertadas rapidamente se, como parece provável, Biden vencer a eleição. Os Estados Unidos voltariam de imediato a aderir ao Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. Os índices de aceitação da América em todo o mundo poderiam se recuperar, como aconteceu quando Obama substituiu George W. Bush na Casa Branca. Mas o fato de que o país pode eleger presidentes desonestos não será esquecido. O falecido cientista político Samuel Huntington sugeriu que eram necessárias duas alternâncias de poder para que se pudesse considerar uma democracia firmemente enraizada. Talvez duas mudanças de presidente sejam necessárias para tranquilizar o mundo sobre os Estados Unidos.

Trump pode ter enfrentado uma China em ascensão e criado as condições tanto para formar uma coalizão na Ásia quanto para convencer a Europa a levar a sério sua própria defesa. Mas a destruição ao longo do caminho foi enorme. O trabalho de reparo é urgente. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

© 2020 The Economist Newspaper Limited. Direitos reservados. Publicado sob licença. O texto original em inglês está em www.economist.com

 

Compartilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *