Vitórias em Wisconsin e Michigan põem Biden mais perto da Casa Branca

O candidato demorcata em evento no Michigan no sábado, dia 31  Foto: AP Photo/Andrew Harnik

As projeções de vitória de Joe Biden em Wisconsin e Michigan nesta quarta-feira, 4, abriram caminho para o democrata chegar mais perto da Casa Branca. Conforme analistas alertaram nas semanas anteriores à votação, alguns Estados poderiam registrar uma virada democrata no curso da apuração dos votos, quando as cédulas pelo correio fossem contabilizadas. É o que tem acontecido nos dois Estados do crucial Meio-Oeste, região que deu a Donald Trump a vitória em 2016.

Com 98% dos votos apurados em Michigan, projeções da mídia internacional apontam que Joe Biden venceu no Estado e, com isso, pode levar os 16 votos do colégio eleitoral. Michigan é um dos Estados decisivos na disputa presidencial, que tem sido apertada desde a noite de terça-feira. Em 2016, Trump venceu no Estado por pouco, derrotando Hillary Clinton por apenas 0,2%.

Entre o começo dos anos 70 e fim dos anos 80, o Estado votou exclusivamente nos republicanos, mas alternou para o partido Democrata em seis eleições presidenciais consecutivas, de 1992 a 2012.

Biden também venceu no Wisconsin, um Estado da chamada “parede azul” que tirou as esperanças de Hillary em 2016, segundo projeções da TV CNN, do jornal New York Times e da rádio NPR. A vitória de Biden veio um dia após o fechamento das urnas e com a contagem de votos de ausentes da cidade de Milwaukee.

Biden ultrapassou Trump na quarta-feira, quando Milwaukee relatou seus cerca de 170 mil votos ausentes, que eram esmagadoramente democratas. Retornos tardios de Green Bay e Kenosha apenas aumentaram sua liderança. O Estado, com 10 votos do colégio eleitoral, há muito é considerado um dos principais campos de batalha com potencial para dar um grande impulso a Biden ou Trump.

Para vencer, o candidato precisa de 270 votos. Até agora, Biden tem 264 no total, contando com Arizona, enquanto Donald Trump aparece com 214.

Alegações de fraude

Após o avanço da apuração em Wisconsin, a campanha de Trump anunciou que houve alegações de irregularidades em muitos condados no Estado, “o que levantava sérias dúvidas sobre a validade dos resultados”.  Pouco depois, a campanha entrou com um pedido de uma recontagem de votos no Estado, como explicou o chefe de campanha republicana, Bill Stepien.

A campanha também apresentou uma ação em um tribunal no Michigan para suspender a contagem de votos no Estado até que seja dado acesso para observar o processo de apuração. A campanha alega que não teve “acesso significativo” para observar a abertura das urnas em vários locais.

Candidatos democratas costumam ter ganhos na apuração após a votação nos Estados onde a contabilização das cédulas pelo correio é feita após a contagem dos votos presenciais. Isso porque o eleitorado democrata é mais propenso a votar de maneira antecipada.

Neste ano a votação pelo correio bateu recorde em razão da pandemia, o que deu esperanças à campanha democrata ontem mesmo diante de resultados iniciais favoráveis a Trump.

Os democratas esperam que o mesmo aconteça na Pensilvânia quando os votos à distância forem contabilizados, mas o Estado pode demorar dias para concluir a divulgação. Na tarde desta quarta-feira, a campanha republicana informou que também acionou a Justiça para parar a contagem dos votos no Estado alegando “falta de transparência”.

Além disso, a campanpa republicana anunciou que entrará com um pedido em um caso já em andamento na Suprema Corte envolvendo o prazo para recebimento de cédulas pelo correio no Estado. Não há relatos de fraudes ou qualquer tipo de preocupação na votação por parte do Estado da Pensilvânia.

Se Biden confirmar a dianteira nos Estados onde está à frente na apuração, tem chance de vencer sem que seja necessário aguardar o resultado na Pensilvânia.

Na noite desta quarta-feira, campanha republicana entrou com mais um processo para pausar a contagem dos votos também no Estado da Georgia, o terceiro processo do tipo hoje.  A Geórgia também é um dos Estados-chave desta eleição e o republicano vinha liderando por uma pequena margem: 50% a 48,8% de Biden, com 94% dos votos contados.

A perspectiva de que a campanha de Biden ganharia espaço conforme as cédulas de voto pelo correio fossem contabilizadas é o que tem motivado os ataques de Trump ao método de votação amplamente empregado no país. Por isso, o presidente argumenta que a contagem deve ser paralisada. Os eleitores do republicano preferem o voto presencial, o que dá a ampla vantagem no início da apuração.

“Eles estão achando votos para o Biden em todo lugar — na Pensilvânia, Wisconsin e Michigan. Muito ruim para o nosso país”, escreveu Trump no Twitter nesta tarde. Na madrugada desta quarta-feira, ele prometeu pedir à Suprema Corte para paralisar a contagem de cédulas, argumentando que se trata de fraude da oposição para vencer, e se declarou vitorioso em Estados onde a apuração não tinha sido encerrada, como Geórgia e Carolina do Norte.

No Michigan, onde Biden e o ex-presidente Barack Obama fizeram atos de campanha nos últimos dias, com 94% da apuração, Biden tinha 2,629,877 votos e Trump, 2,551,701. A vantagem de Biden é de 49,6% a 48,7%. Michigan tem 16 delegados no colégio eleitoral.

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Para o diplomata Rubens Ricupero, que foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos, é cedo para traçar um cenário antes do resultado da Pensilvânia, que pode demorar dias por conta do método de contagem dos votos. “A expectativa é que Biden só ganhará se os votos que foram pelo correio mostrarem uma maioria esmagadora em seu favor”.

Ricupero acrescentou que a lição da disputa de 2020 é que não houve uma reversão, como se esperava, da eleição de 2016. “Em grande parte, é um replay”, compara. Para o veterano diplomata, as causas da divisão da sociedade americana são muito profundas e não desapareceram.

“Trump não é um fenômeno passageiro e vê-se que ele tem um apoio muito sólido. Qualquer um que ganhe terá de lidar com essa radicalização e com essa polarização”.

Na avaliação do professor Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), a principal surpresa da apuração dos votos foi o Arizona, onde Biden deve vencer com 11 delegados (a apuração está próxima de 90%).

“Agora, o democrata precisa manter a pequena margem de vantagem no Michigan, Nevada e Wisconsin para conseguir os votos que faltam para alcançar os 270 delegados. Com isso, os votos da Pensilvânia seriam um bônus”, afirma Menezes, que é pesquisador do Instituto Nacional de Estudos sobre os EUA (INEU). Os resultados de Nevada, Alasca, Geórgia e Carolina do Norte também ainda estão em aberto.

Professor de relações internacionais da FAAP especializado em política americana, Carlos Poggio avalia que a virada se deu porque os votos por correio, que começaram a ser contados apenas tardiamente, são favoráveis a Joe Biden. “É sempre importante olhar qual tipo de voto está sendo contabilizado e de onde ele está vindo”, explica.

“Em lugares altamente populosos, nas grandes cidades, os votos são pesadamente democratas, enquanto em áreas rurais e cidades menores, são republicanos”. Poggio vê a possibilidade de um cenário parecido com 2016, mas “com sinal invertido”, caso haja vitórias apertadas de Biden em Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, onde Trump venceu Hillary há quatro anos.

Estadão

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